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Brasil em Músicas
Brasil em Músicas

Aquela música que você ainda canta sem perceber

Você conhece a música há décadas e provavelmente nunca ouviu a gravação que importa. Uma canção por domingo de manhã: de onde veio, quem gravou, e qual das dezenas de versões vale a pena.

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As duas audiências

Ninguém estava lá desde o começo

Carinhoso é de 1917 e levou vinte anos para ganhar letra, escrita por João de Barro. Quem cresceu cantando a gravação de Orlando Silva, o cantor que a transformou em canção, também chegou depois: chegou vinte anos depois da melodia.

Vale para todo mundo aqui. Uns pegaram essas canções no rádio, quando elas eram novidade. Outros pegaram numa festa de família, sem nunca saber o nome de quem escreveu, e os dois estão ouvindo a mesma coisa por caminhos diferentes.

A Cantarola não escolhe entre os dois. O que ela faz é dar a quem estava lá aquilo que passou batido, e a quem chegou depois o mapa de uma coisa que já é dele.

O que vem na edição

Nove blocos, sempre na mesma ordem

  1. 01

    A canção

    De onde veio, quem escreveu, o que estava acontecendo em volta. Entre quatrocentas e seiscentas palavras.

  2. 02

    O compositor

    Quem fez a música, e por que essa pessoa importa além dessa canção. Com retrato de acervo quando existe um em domínio público.

  3. 03

    O Brasil na época

    O país em volta da gravação. Carinhoso chegou às lojas em julho de 1937, e o Estado Novo começou em novembro do mesmo ano.

  4. 04

    As gravações

    Todas as que existem, em ordem, com a escolhida marcada. Sem ver as alternativas, dizer que uma é a certa é afirmação sem prova.

  5. 05

    A versão certa

    A gravação que vale a pena, com uma frase dizendo por quê, selo, número de disco e matriz, e dois botões: YouTube e Spotify.

  6. 06

    O que escutar

    Três pistas para ouvir a gravação escolhida com atenção dirigida: a forma, o andamento e o jeito de cantar. É o único bloco em que a gente interpreta em vez de apurar.

  7. 07

    Do acervo

    Uma imagem de arquivo com legenda e fonte nomeada, quase sempre a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

  8. 08

    Uma linha

    O fecho leve, geralmente um detalhe que não coube em lugar nenhum.

  9. 09

    Uma pergunta

    Feita ao leitor no fim, e respondida por gente de verdade.

Seis a oito minutos. A ordem nunca muda, e é a repetição que transforma um envio em hábito de domingo.

A prova

Uma edição inteira, antes de você assinar

Esta é a edição completa, do jeito que ela chega na caixa de entrada.

A canção

Pixinguinha compôs Carinhoso entre 1916 e 1917 e depois guardou a música por mais de dez anos. O motivo era técnico, e só faz sentido quando alguém explica: choro daquela época tinha três partes, na ordem ABACA, e Carinhoso nasceu com duas. Uma peça de duas partes não era considerada choro pelo pessoal do ramo. O compositor engavetou e foi tocar outra coisa.

A data, aliás, é menos firme do que parece. O pesquisador José Silas Xavier aponta a dificuldade de precisar em que ano a peça foi escrita, e considera que 1917, o número que quase todo mundo repete, pode não ser o certo.

Quando a música finalmente saiu da gaveta, em 1928, foi para levar bordoada. A Parlophon gravou a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga tocando Carinhoso ainda sem letra, em andamento bem mais rápido que o de hoje. O crítico Cruz Cordeiro, da revista Phono-Arte, publicou nota reprovando a peça: para ele, Pixinguinha estava contaminado por ritmos e melodias de jazz. A acusação de americanismo perseguiu o compositor por anos, e não era só sobre música. No ano seguinte veio uma segunda gravação, pela Orquestra Victor Brasileira, também instrumental, também sem virar coisa alguma.

O que mudou tudo foi um pedido de última hora. Em 1936, a cantora Heloísa Helena precisava de uma canção inédita para a Parada das Maravilhas, espetáculo beneficente promovido pela primeira-dama Darcy Vargas. Ela procurou João de Barro, o Braguinha, e ele se lembrou do choro velho de Pixinguinha. Não havia partitura à mão: Pixinguinha tocou a melodia na flauta, repetidas vezes, até João de Barro decorar. A letra saiu daí, e é a letra que faz a música existir do jeito que todo mundo conhece.

Vale medir o tamanho do intervalo. Entre a melodia e a letra passaram-se cerca de vinte anos, e entre a primeira gravação e a que ficou famosa, quase dez. Quem cresceu cantando Carinhoso na voz de Orlando Silva também chegou depois: chegou duas décadas depois de a melodia existir.

O compositor

O homem que atravessou três eras da música brasileira

Pixinguinha, jovem, sentado ao harmônio, em fotografia de 1922.
Pixinguinha ao harmônio, em 1922, ano da viagem dos Oito Batutas a Paris.Instituto Moreira Salles, Coleção Pixinguinha. Domínio público.

Alfredo da Rocha Vianna Filho cresceu dentro da música por acidente de endereço. O pai era funcionário do Telégrafo e flautista amador, e a casa da família, no Catumbi, tinha oito cômodos que viviam cheios de músicos. O lugar acabou conhecido como Pensão do Choro: um menino criado ali não precisava procurar aula de música em lugar nenhum.

Em 1917, o gerente de cinema Isaac Frankel pediu a ele que montasse um conjunto para tocar na sala de espera, enquanto a plateia aguardava a sessão. Desse pedido sem ambição nenhuma saíram Os Oito Batutas. Cinco anos depois, em 28 de janeiro de 1922, o grupo embarcou para Paris, bancado por Arnaldo Guinle. A viagem virou escândalo em parte da imprensa carioca: incomodava que músicos negros representassem o país lá fora.

Ele foi flautista até virar saxofonista, em 1946, e foi arranjador de gravadora numa época em que arranjo era trabalho anônimo. É por isso que o nome dele aparece em centenas de discos sem estar na capa. Morreu em 17 de fevereiro de 1973, dentro de uma igreja em Ipanema, onde tinha ido a um batizado.

O Brasil na época

O Brasil que ouviu Carinhoso pela primeira vez

A gravação de Orlando Silva chegou às lojas em julho de 1937. Em 10 de novembro do mesmo ano, Getúlio Vargas fechou o Congresso, outorgou uma nova Constituição e começou o Estado Novo. A canção que o país inteiro passou a cantar entrou em circulação nos últimos meses antes da ditadura.

O veículo dessa popularidade tinha menos de um ano. A Rádio Nacional foi ao ar em setembro de 1936, e Orlando Silva estava no elenco desde o começo. Vargas entendeu rápido o que aquilo significava: rádio alcançava quem não lia jornal. O mesmo aparelho que levou Carinhoso para dentro das casas levaria, pouco depois, a voz do governo.

Era também o período em que o samba deixava de ser caso de polícia e virava material de identidade nacional, sob vigilância. Nesse ambiente, uma canção que dez anos antes tinha sido acusada de americanismo virou, sem mudar uma nota, símbolo do que o Brasil tinha de mais brasileiro.

Os Oito Batutas posados com seus instrumentos, em fotografia dos anos 1920.
Os Oito Batutas, por volta de 1923. O grupo que Pixinguinha montou para tocar na sala de espera de um cinema acabou levando música brasileira a Paris.Acervo Dedoc-Nova Cultural. Domínio público.

As gravações

Três existem. Uma é a que importa.

  1. 1928Orquestra Típica Pixinguinha-Donga · ParlophonInstrumental, sem letra, em andamento bem mais rápido. É a gravação que o crítico da Phono-Arte acusou de jazz.
  2. 1929Orquestra Victor Brasileira · VictorTambém instrumental. Passou sem deixar marca.
  3. 1937Orlando Silva · VictorA primeira com a letra de João de Barro, com regional atrás e andamento lento. É a que o país decorou.A escolhida

A versão certa

Orlando Silva, 1937

É a gravação em que Carinhoso deixa de ser um choro instrumental e vira canção. As duas anteriores existem e são de Pixinguinha, mas não têm letra, e sem letra a música nunca saiu do círculo dos músicos. Orlando Silva canta com o regional atrás, em andamento bem mais lento que o de 1928, e é esse andamento que o país decorou.

Gravada em
28 de maio de 1937
Selo
Victor, disco 34.181, lado A
Matriz
80423

O que escutar

Três coisas para ouvir na gravação de 1937

  1. A formaSão duas partes que se alternam, A e B, e mais nada. Conte enquanto ouve: quando a segunda parte acaba, a primeira volta. Foi essa economia que fez o pessoal do choro torcer o nariz nos anos 1920, e é ela que faz a melodia grudar em quem nunca estudou música.
  2. O andamentoPonha a gravação de 1928 antes desta e ouça as duas em seguida. São as mesmas notas em velocidades diferentes, e a diferença de andamento muda o gênero da peça: depressa ela é choro de conjunto para dançar, e devagar vira canção de um homem só diante de um microfone.
  3. O jeito de cantarOrlando Silva entra um pouco atrás do tempo do regional e alcança a frase no meio do caminho, em vez de cair junto com o violão. É a marca dele, e é o motivo de a gravação soar de perto mesmo com o conjunto inteiro atrás.

Do acervo

Página da revista Carioca de 1939 com Orlando Silva cantando.
Orlando Silva na revista Carioca, edição 169, de 14 de janeiro de 1939. Dois anos depois de gravar Carinhoso, ele era chamado de o cantor das multidões, apelido dado pelo locutor Oduvaldo Cozzi.Hemeroteca Digital, Biblioteca Nacional. Revista Carioca nº 169, 1939. Domínio público.

Uma linha

Aos setenta anos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim foi atrás da certidão de batismo na Igreja de Santana e descobriu que a festa estava um ano atrasada: o homenageado fazia setenta e um.

Pergunta

Em que cômodo da casa Carinhoso estava tocando, e quem estava junto?

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A diferença

O mais tocado quase nunca é o primeiro

Catálogo de streaming ordena por audiência acumulada. Regravação recente, coletânea de fim de ano e trilha de novela empilham reprodução por décadas. É essa soma que decide o que aparece no topo quando alguém busca uma canção antiga.

O resultado é previsível: a gravação que fez a canção existir costuma ficar três telas abaixo. Carinhoso circulou como choro instrumental por vinte anos, e só virou a canção que todo mundo conhece na gravação de Orlando Silva, de 1937. Buscar hoje pelo nome devolve dezenas de versões antes dessa.

Escolher entre elas é o trabalho da Cantarola. Wikipedia dá o contexto e os sites de letra dão a letra, mas a pergunta de qual gravação ouvir continua sem dono.

A promessa

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Fechamento

As músicas você já tem

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